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Sífilis avança no Brasil, com transmissão vertical em alta

Sem catagoria

A sífilis continua a ser um grave problema de saúde pública no Brasil, com o país enfrentando um ritmo acelerado de crescimento da doença, refletindo uma preocupante tendência mundial. Dados recentes, que incluem o período até junho de 2024, revelam uma situação particularmente alarmante entre gestantes, onde a taxa nacional de detecção alcançou 35,4 casos por mil nascidos vivos no ano passado. Este índice sublinha o avanço da transmissão vertical, fenômeno em que a sífilis passa da mãe para o bebê, com consequências devastadoras. Especialistas alertam para a persistência deste desafio, destacando a necessidade urgente de fortalecer as estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento eficazes em todo o território nacional para conter a disseminação da sífilis.

O desafio persistente da sífilis congênita no Brasil

A luta para controlar os números da sífilis congênita é um esforço que se estende desde a década de 1980 no Brasil. Apesar de a sífilis ser uma doença mais fácil de diagnosticar, rastrear e mais econômica de tratar em comparação com outras infecções como o HIV, o país ainda não conseguiu reduzir significativamente essas cifras. A situação é especialmente grave entre as mulheres jovens e, consequentemente, em fetos e recém-nascidos.

Conforme Helaine Maria Besteti Pires Mayer Milanez, ginecologista e membro da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o Brasil enfrenta um problema sério tanto na população adulta jovem quanto na população em idade reprodutiva. Essa realidade impulsiona diretamente o aumento da transmissão vertical. A médica enfatiza que, diferentemente dos avanços observados no controle do HIV, a sífilis continua a ser um desafio sem resultados positivos consistentes, perpetuando a preocupação com a saúde materno-infantil.

Interpretações equivocadas e a lacuna no tratamento do parceiro

Um dos entraves para o controle da sífilis reside no subdiagnóstico da infecção pelos profissionais de saúde. O principal exame para identificar a sífilis no sangue, amplamente utilizado no Brasil, é o VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), um teste não treponêmico que, embora não específico do Treponema pallidum, indica a infecção e monitora a resposta ao tratamento. Existe também o teste treponêmico, que permanece positivo mesmo após a cura.

Um erro comum, segundo a ginecologista, ocorre quando o profissional de saúde, ao observar um teste treponêmico positivo e um VDRL negativo, assume que se trata de uma “cicatriz” de infecção anterior e descarta a necessidade de tratamento. Esse equívoco é grave, pois a maioria das grávidas apresentará um teste não treponêmico positivo ou com título baixo, mantendo o ciclo de infecção que pode ser transmitido ao parceiro sexual e ao feto. A interpretação inadequada da sorologia no pré-natal é, portanto, um problema crítico.

Além disso, o não tratamento ou o tratamento inadequado da parceria sexual são fatores que contribuem significativamente para a reinfecção. Quando os parceiros não são tratados, as bactérias continuam a circular entre eles, reinfectando a gestante e aumentando novamente o risco de transmissão para a criança. A falta de um diagnóstico adequado e a desvalorização da sorologia no pré-natal culminam no desfecho trágico da sífilis congênita, uma condição que poderia ser evitada com protocolos claros e uma atenção mais rigorosa.

Perfil dos grupos de risco e a invisibilidade da doença

A sífilis, juntamente com o HIV, apresenta maior prevalência em duas faixas etárias distintas no Brasil: entre 15 e 25 anos e na terceira idade. Entre os jovens, a especialista observa uma redução do receio em relação às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), levando ao abandono dos métodos de barreira, como a camisinha. A percepção de que o HIV se tornou uma doença crônica tratável, por exemplo, contribuiu para que adultos jovens baixassem a guarda na prevenção.

Já na terceira idade, o cenário é influenciado pelo aumento da vida sexual ativa, frequentemente impulsionado pelo uso de medicamentos que melhoram o desempenho sexual. A ausência do risco de gravidez nessa faixa etária também contribui para a negligência dos métodos de barreira, uma vez que a prevenção da gestação deixa de ser uma preocupação primordial.

Um dos maiores desafios no controle da doença é a sua natureza assintomática, especialmente em mulheres grávidas. Mais de 80% das gestantes infectadas não manifestam sintomas da doença durante a gestação, apresentando a forma latente. Se o exame não for interpretado corretamente, a doença não é tratada e evolui, colocando o bebê em risco de infecção. A prevalência da doença assintomática também é alta entre os homens, o que complica ainda mais o diagnóstico e a interrupção da cadeia de transmissão.

O perigo da sífilis assintomática e eventos de risco

A manifestação inicial da sífilis, o cancro, uma úlcera genital, pode aparecer também na cavidade oral. Nos homens, essa lesão geralmente surge na coroa do pênis, mas nas mulheres, ela frequentemente fica escondida no fundo da vagina ou no colo do útero, passando despercebida. O perigo reside no fato de que, mesmo sem tratamento, essas lesões desaparecem espontaneamente. Um homem pode não buscar atendimento médico porque a lesão sumiu, acumulando um alto risco de transmitir a doença para sua parceira sexual.

Similarmente, uma erupção cutânea difusa que caracteriza a fase secundária da sífilis também pode desaparecer sem intervenção médica. O grande problema é que a sífilis tem marcadores clínicos visíveis nas fases primária e secundária, mas a fase latente é assintomática, e o indivíduo permanece infeccioso, podendo transmitir a doença. A maioria dos homens assintomáticos não é identificada sem exames específicos.

Nos estágios iniciais, os exames laboratoriais de sangue podem ser negativos, positivando apenas em duas ou três semanas. Nesses casos, a identificação do paciente depende da raspagem da lesão para pesquisa do Treponema.

A proximidade de festividades como o Carnaval agrava a situação, pois as práticas sexuais desprotegidas tornam-se mais frequentes. O abandono dos métodos de barreira, infelizmente, tem contribuído para o aumento das infecções sexualmente transmissíveis. Enquanto para o HIV existe a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), um medicamento antirretroviral que reduz o risco de infecção em mais de 90% quando usado corretamente (disponível gratuitamente no SUS), não há um equivalente para a sífilis, reforçando a importância do uso do preservativo.

Sem tratamento, a infecção pode evoluir para a fase secundária, caracterizada por exantema difuso, atingindo inclusive as palmas das mãos e as plantas dos pés. Também pode provocar alopecia em “caminho de rato” e condiloma plano (lesão genital). Esta fase apresenta uma grande quantidade de treponemas circulantes, o que aumenta drasticamente o risco. Em gestantes, a chance de acometimento fetal chega a 100% quando a sífilis está recente, tornando o diagnóstico e o tratamento ainda mais urgentes para proteger a vida do bebê.

Estratégias de prevenção, tratamento e a urgência da atenção

Diante do cenário desafiador, diversas entidades têm atuado para combater a sífilis. A Febrasgo, por exemplo, promove cursos de prevenção e tratamento das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) para profissionais de saúde, além de produzir materiais técnicos que visam esclarecer médicos sobre a abordagem adequada às pacientes.

No âmbito governamental, a especialista Helaine Martinez também integra o grupo de transmissão vertical do Ministério da Saúde. Este grupo, há anos, disponibiliza protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas para a transmissão vertical de sífilis, HIV e hepatites virais. Esse material está acessível online a todos os interessados. Segundo a médica, não há falta de informação, mas sim a necessidade de aplicá-la e estudá-la para se obter o conhecimento adequado. A ocorrência de sífilis congênita é considerada, atualmente, um dos melhores marcadores da qualidade da atenção pré-natal. A urgência de um diagnóstico e tratamento eficazes é inquestionável, visando quebrar a cadeia de transmissão e proteger as futuras gerações dos impactos devastadores da sífilis.

Perguntas frequentes

1. O que é sífilis e como ela é transmitida?
A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. É transmitida principalmente por contato sexual desprotegido com uma pessoa infectada, mas também pode ser passada da mãe para o bebê durante a gravidez (transmissão vertical).

2. Por que a sífilis em gestantes é tão preocupante?
A sífilis em gestantes é preocupante devido ao alto risco de transmissão vertical, que pode causar a sífilis congênita no bebê. Essa condição pode levar a aborto espontâneo, parto prematuro, natimortos, má-formações, problemas neurológicos graves, surdez, cegueira e até a morte do recém-nascido.

3. Quais são os principais desafios para o controle da sífilis no Brasil?
Os principais desafios incluem o subdiagnóstico da doença devido à sua natureza assintomática e a interpretação inadequada de exames sorológicos, o não tratamento ou tratamento insuficiente dos parceiros sexuais, o abandono de métodos de barreira por parte de jovens e idosos, e a falta de adesão aos protocolos de tratamento.

4. A sífilis tem cura?
Sim, a sífilis tem cura, especialmente se diagnosticada e tratada precocemente. O tratamento é feito com antibióticos, geralmente penicilina, e deve ser acompanhado por um profissional de saúde. É fundamental que o tratamento seja completo e que os parceiros sexuais também sejam tratados para evitar a reinfecção.

5. Onde posso encontrar mais informações e recursos de prevenção?
Informações detalhadas e materiais técnicos estão disponíveis em sites de órgãos de saúde, como o Ministério da Saúde (através do grupo de transmissão vertical e seus protocolos clínicos) e entidades profissionais como a Febrasgo. Além disso, unidades básicas de saúde oferecem testagem e aconselhamento sobre prevenção de ISTs.

Diante do cenário preocupante da sífilis no Brasil, a conscientização é sua maior aliada. Procure sempre um serviço de saúde para testagem regular, utilize preservativo em todas as relações sexuais e, em caso de dúvidas, não hesite em buscar orientação profissional. A prevenção e o tratamento precoce são essenciais para proteger sua saúde e a de quem você ama.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br