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Senado aprova PL da Dosimetria na CCJ; plenário avalia votação hoje

Sem catagoria

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal deu um passo significativo nesta quarta-feira (17) ao aprovar o Projeto de Lei (PL) 2.162/2023, conhecido como PL da Dosimetria, por 17 votos favoráveis e 7 contrários. A proposta, que tem gerado intenso debate e mobilização em diversos setores da sociedade, visa alterar o cálculo de penas de condenados por crimes de tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito, especialmente aqueles relacionados aos atentados de 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes. A celeridade na tramitação é notável, com a expectativa de que o texto seja submetido à votação do plenário do Senado ainda hoje, marcando um momento crucial para o sistema judiciário e a política brasileira. A possível aprovação traria implicações diretas para dezenas de réus já julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo figuras de grande relevância política.

A controvertida aprovação na CCJ

O processo de votação e o parecer de Amin

A sessão da Comissão de Constituição e Justiça para analisar o parecer sobre o Projeto de Lei da Dosimetria foi iniciada pela manhã. O texto aprovado é resultado do parecer do senador Esperidião Amin (PP-SC), que propõe, entre outros pontos, a redução das penas para condenados por atos golpistas. Essa modificação, caso sancionada, poderia beneficiar uma gama de réus, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ser apontado como líder da trama golpista que visava reverter o resultado das eleições de 2022 e mantê-lo no poder.

A dinâmica da votação na CCJ foi marcada por uma tramitação incomum. Após a apresentação do parecer, foi concedido um pedido de vista coletiva, que é o prazo para os senadores analisarem o texto, com uma duração de apenas quatro horas. Usualmente, esses pedidos podem se estender por até cinco dias. A decisão de reduzir drasticamente o tempo para análise acelerou o processo, permitindo que a votação fosse retomada pouco depois das 15h. Essa agilidade foi estratégica, visto que o ano legislativo está programado para terminar nesta quinta-feira (18), e não há mais reuniões agendadas da CCJ para o período. Um prazo maior teria, na prática, adiado a apreciação do projeto pela comissão para o próximo ano.

Um ponto central do parecer de Amin foi o acolhimento de uma emenda ao texto original. Essa emenda estabelece que a redução das penas seja aplicada especificamente aos condenados pelos atos golpistas. O senador classificou essa alteração como um mero ajuste de redação, e não de mérito. A distinção é crucial: se fosse considerada uma emenda de mérito, o projeto teria que retornar à Câmara dos Deputados, que já havia aprovado a matéria na madrugada de 10 de dezembro. Ao ser classificada como de redação, a emenda permite que o projeto siga diretamente para o plenário do Senado, sem a necessidade de uma nova rodada de apreciação pelos deputados, agilizando ainda mais sua conclusão no Congresso.

Repercussões e desafios à tramitação

O embate político e a reação no congresso

A controversa aprovação na CCJ e a interpretação da emenda de Amin já provocaram reações políticas contundentes. O líder da federação PT, PCdoB e PV na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (PT-RJ), manifestou-se publicamente, anunciando que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF) caso o projeto não retorne para uma nova análise na Câmara. Segundo Farias, a assessoria jurídica de sua bancada já está mobilizada para questionar o que ele descreve como uma “manobra de dissimular emenda de mérito como emenda de redação” com o objetivo de impedir o retorno do projeto à Câmara. O deputado argumenta que o propósito é claro: “ganhar tempo, garantir o devido processo legislativo e levar o debate para o próximo ano”. Ele reforçou a posição, declarando que, se o projeto avançar hoje, o STF será acionado imediatamente, reafirmando que “Democracia não se negocia!”.

Paralelamente, a tramitação do PL da Dosimetria também foi alvo de posicionamentos do Poder Executivo. Em 10 de dezembro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), enviou o PL para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), designando Esperidião Amim (PP-SC) – conhecido por seu apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro – como relator. No dia seguinte, questionado sobre o projeto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou uma postura cautelosa, afirmando que só decidirá se sancionará o texto quando ele chegar oficialmente ao Poder Executivo. Lula enfatizou que não gosta de “dar palpite numa coisa que não diz respeito ao Poder Executivo”, classificando a questão como pertinente ao Poder Legislativo e reconhecendo que “tem gente que concorda, tem gente que não concorda”.

Mobilização popular contra o projeto

Diante do rápido avanço da matéria no Congresso Nacional, a sociedade civil também se manifestou. No domingo (14), manifestantes de diversas cidades brasileiras foram às ruas para expressar sua contrariedade à aprovação do PL da Dosimetria. Os atos foram promovidos pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, movimentos de esquerda que se mobilizaram ativamente contra a proposta. A Avenida Paulista, um dos principais centros de manifestação em São Paulo, foi ocupada por populares que protestavam contra o que consideravam um retrocesso na responsabilização dos envolvidos nos atos antidemocráticos. A mobilização popular reflete a polarização e a preocupação de setores da sociedade com as possíveis consequências da lei para a justiça e a estabilidade democrática do país.

Entendendo o PL da Dosimetria

O cerne do Projeto de Lei da Dosimetria reside em uma mudança fundamental no cálculo das penas. O texto determina que, para os crimes de tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado, quando praticados no mesmo contexto, a condenação implicará na aplicação da pena mais grave dentre eles, em vez da soma de ambas as penalidades. O foco do PL é uma “calibragem” da pena mínima e da pena máxima de cada tipo penal, bem como da forma geral de cálculo das penas.

Além disso, o projeto propõe uma redução no tempo necessário para a progressão do regime de prisão, passando de fechado para semiaberto ou aberto. Essas alterações são significativas e têm o potencial de beneficiar diversos réus envolvidos nos eventos de 8 de janeiro de 2023 e na trama golpista. Entre os possíveis beneficiados, além do ex-presidente Jair Bolsonaro, estão importantes figuras militares, como o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier; o ex-ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira; o ex-ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto; e o ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. A justificativa para as mudanças, segundo defensores, seria a de buscar uma maior proporcionalidade e individualização da pena, evitando o que consideram um excesso na aplicação de sentenças acumuladas.

Conclusão

A aprovação do PL da Dosimetria na CCJ do Senado marca um momento de intensa controvérsia e urgência legislativa. Com a expectativa de votação em plenário ainda hoje, o projeto se torna o epicentro de um debate que confronta princípios de justiça, responsabilização pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e o futuro do sistema penal brasileiro. A agilidade da tramitação, a interpretação da emenda do relator e as ameaças de judicialização por parte da oposição sublinham a gravidade e as profundas divisões políticas em torno da matéria. Enquanto manifestações populares expressam a insatisfação de parte da sociedade, o Poder Executivo aguarda o desfecho legislativo para se posicionar. Os próximos passos no Congresso Nacional e, possivelmente, no Supremo Tribunal Federal, definirão o destino de uma proposta que tem o potencial de reconfigurar a paisagem jurídica e política do país, com implicações diretas para a responsabilização dos envolvidos em tentativas de ruptura democrática.

FAQ

O que é o PL da Dosimetria?
O PL da Dosimetria (Projeto de Lei 2.162/2023) é uma proposta legislativa que busca alterar o cálculo das penas, especialmente para crimes de tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado. Ele propõe que, quando esses crimes são cometidos no mesmo contexto, seja aplicada a pena mais grave, em vez da soma de ambas. Também sugere a redução do tempo para progressão de regimes de prisão.

Quem seriam os principais beneficiados pelo projeto?
O projeto poderá beneficiar condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e pela trama golpista, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e militares de alto escalão como Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa), Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil) e Augusto Heleno (ex-chefe do GSI).

Por que a emenda apresentada pelo relator é controversa?
A emenda apresentada pelo senador Esperidião Amin (PP-SC) foi classificada como um “ajuste de redação”, o que, regimentalmente, impede que o projeto retorne à Câmara dos Deputados para nova análise. Críticos, como o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), argumentam que se trata de uma “emenda de mérito” disfarçada, visando acelerar a aprovação sem o devido processo legislativo e impedindo um debate mais aprofundado na Câmara, o que a torna alvo de contestação política e potencial recurso ao STF.

Qual o próximo passo para o PL da Dosimetria após a aprovação na CCJ?
Após a aprovação na Comissão de Constituição e Justiça, o PL da Dosimetria segue para votação no plenário do Senado Federal. Se aprovado pelo plenário, o texto será encaminhado para sanção ou veto do Presidente da República. Em caso de aprovação com a emenda classificada como de redação, ele não precisaria retornar à Câmara dos Deputados, o que agiliza sua tramitação final no Congresso.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br